FAQ do podcast narrativo: o que rolou

Na semana passada fizemos um encontro (virtual, claro) com quase 40 pessoas que querem fazer, já estão fazendo ou estão pesquisando podcasts narrativos. Resumimos neste post as principais perguntas e respostas que rolaram. Um super obrigada para a Samara Wobeto, que compartilhou várias anotações com a gente, e para o Ricardo Ogando, que lembrou de tirar a foto.

Devo fazer um roteiro antes de ir a campo?

Não precisa fazer exatamente um roteiro, mas é importante tentar imaginar o episódio antes de ir a campo. Com base no que você já pesquisou ou descobriu em pré-entrevistas (falamos disso abaixo), você pode desenhar um mapa pensando em como o episódio pode se desenrolar – começo, auge, fim -, mesmo que tudo isso mude depois. Por aqui, quando estamos juntas, gostamos de fazer um esquema com post-its na parede. Quando estamos separadas, usamos plataformas como Google Jamboard e Milanote (nosso queridinho).

O mapa imaginado do episódio ajuda a pensar quais perguntas você deve e quer fazer aos entrevistados. Depois de coletado todo o material em campo (entrevistas, cenas), você pode revisitar o esquema e reajustá-lo com base no que você tem em mãos, trocando as coisas de lugar e adicionando elementos novos. Daí pra frente, o mapa pode guiar o seu roteiro.

Devo fazer pré-entrevistas?

Sempre que possível, faça uma rápida conversa preliminar antes de marcar uma entrevista oficial, especialmente se a entrevista for exigir deslocamento e gastos. Nem que seja um papo de 10 minutinhos no telefone. A conversa preliminar serve para conhecer o possível entrevistado, descobrir se ele tem desenvoltura e identificar os pontos mais interessantes da história (mas não deixe a pessoa falar muito, é só um esquenta).

Pode ser que nessa conversa você descubra que aquela não é a melhor pessoa para o que você precisa. E tudo bem. Mas para não criar desconfortos, lembre-se de avisar a pessoa que se trata apenas de uma pesquisa preliminar. Diga que você ainda está explorando os possíveis caminhos do episódio (o que é 100% verdade).

Se a conversa não fluir bem, você pode optar por usar esse entrevistado de maneira mais pontual e buscar outra pessoa que se sinta mais à vontade para conversar ou que tenha melhores histórias para contar dentro daquele assunto.

Obs.: O tom das suas perguntas influencia o tom das repostas. Mesmo que você tenha se preparado muito para a entrevista, não haja como se soubesse tudo. Você pode já saber o que é um vírus, mas ter o seu entrevistado explicando isso pode ser legal. Tente se colocar no lugar do ouvinte – que não pesquisou nada disso – e fazer perguntas que ele faria. E procure fazer um balanço entre perguntas abertas (que permitem dar aquela “viajada”), mais direcionadas/específicas (sobre um determinado estudo, por exemplo), e pessoais.

Devo transcrever as entrevistas?

Você pode transcrever detalhadamente só as melhores partes da entrevista. Para o restante, pode fazer uma transcrição mais grosseira, apenas anotando informações relevantes (que vão ser úteis para o roteiro) e marcando a minutagem delas. Uma ferramenta que facilita o trabalho é o oTranscribe. Ele é como um bloco de notas onde você escreve enquanto escuta o áudio, com o diferencial de que você navega pelo áudio com mais facilidade, usando comandos simples para pausar, acelerar e registrar a minutagem exata a qualquer momento. Se preferir pagar por uma transcrição automática, tem o Sonix. Ele não é perfeito (a gravação precisa estar bem limpinha), mas tem algumas vantagens, como a possibilidade de trabalhar com duas faixas separadas (por exemplo, você e o entrevistado).

Como estruturar o roteiro?

A construção do roteiro é algo muito particular de cada podcast e de cada história. Existem algumas estruturas clássicas (como o formato “e” e o sanduíche/3+2) que ajudam a começar. Mas, no geral, a escrita do roteiro é uma artesania e um jogo de erro e acerto, de teste e ajuste.

Uma coisa pode ajudar é organizar no software de edição todos os áudios que você quer usar (a nata das entrevistas, cenas captadas em campo, áudios de arquivo). Você pode ordená-los de acordo com o seu mapa imaginado (que falamos antes) e depois tentar costurar uma coisa na outra. Aí você vai vendo se essa sequência funciona ou se seria melhor mudar as peças de lugar.

Independente da estrutura do episódio, lembre-se que você não deve demorar para fisgar o ouvinte. Se os dois primeiros minutos forem desinteressantes ou muito lentos, por exemplo, o ouvinte pode desistir e ir fazer outra coisa da vida.

Obs.: Para testar o roteiro em voz alta e ver se ele está funcionando, o ideal é convidar alguma pessoa que não conhece a história. Assim dá para saber se o episódio está compreensível e instigante e se o ritmo está bom. No 37 Graus, passamos a escrever os roteiros e fazer parte das apurações “escondido” uma da outra. Então, por exemplo, a Sarah roteiriza um episódio sozinha e depois apresenta para a Bia (lendo em voz alta e dando play em cada trecho de áudio). Pode ser uma solução para quem tem equipe pequena.

Como transitar entre o narrador e os entrevistados de um jeito natural?

Trabalhe com base nos melhores trechos de áudio que você tem e imagine como você pode entrar na “cena” para contar a história junto com o entrevistado. Para deixar essa costura mais natural, na hora de gravar a narração, narre também as falas do seu entrevistado, tentando chegar o mais perto possível na entonação dele. Depois você corta as suas partes e substitui pelas dele.

Os silêncios são propositais?

Sim, tudo num podcast narrativo deve ser proposital – o que não impede que existam partes que foram gravadas de maneira espontânea. Os silêncios não devem acontecer por acaso porque eles têm funções. Um silêncio pode servir que o ouvinte tenha um tempo para processar o que foi dito, ou para criar suspense, ou para fazer uma transição, etc. Pense sempre no papel deles na narrativa para sentir quanto tempo eles devem durar. (Quando dizemos “silêncio”, estamos falando da pausa das vozes. Uma música que se alonga para dar “respiro” à história também pode ser considerada um silêncio.)

Qual software vocês usam para captar narração e editar os episódios?

Usamos o Adobe Audition, mas existem várias opções. Hindenburg, Protools e Reaper são outros bastante usados por editores de podcast.

Como faz para encontrar um estilo de narração, a entonação correta?

Para a gente isso é uma eterna batalha. Estamos sempre tentando melhorar o nosso jeito de narrar. Mas boa parte do processo de encontrar o seu estilo, na verdade, tem mais a ver com o roteiro do que com a fala.

Quando você escreve algo pensando que aquilo vai ser dito em voz alta, se preocupando com o ritmo das frases e tentando escolher as palavras que você mais usa no dia a dia, tudo tende a ficar mais natural. A dica é sempre escrever enquanto fala, ou sempre falar enquanto escreve. Teste o roteiro em voz alta e faça ajustes até ele soar como algo que você diria para um amigo (ou o mais perto disso possível). Por isso é importante que cada pessoa escreva (ou pelo menos revise e adapte) suas próprias falas. Tem vezes que a Bia escreve uma palavra que a Sarah jamais diria na vida real, e vice-versa.

Como funciona a escolha da trilha sonora?

No caso do 37 Graus, temos um músico que compõe trilhas para cada história. Mas existem bancos de músicas gratuitos e pagos onde você pode garimpar, como o Blue Dot Sessions, que funciona bem para podcasts, e o Musopen, de música erudita.

De modo geral, a gente pensa nas músicas de duas formas: como uma parte ativa da história – trazendo tensão, humor, drama – e como um elemento de pontuação ou sinalização, para destacar frases importantes do roteiro, fazer transições entre cenas etc.

Na dúvida, é melhor usar pouco do que muito, tanto em quantidade como em complexidade. No caso dos podcasts, em que o áudio é tudo o que você tem, é importante escolher músicas que não briguem com as vozes. Por isso é difícil (mas não impossível) garimpar em bancos de trilhas para vídeos, como o Youtube Audio Library. As músicas costumam ser um pouco mais poluídas.

Como conseguir cenas e diferentes texturas sonoras sem sair de casa?

Tente captar momentos de bastidores (nem que seja sua preparação para as entrevistas, suas interações com outro apresentador), buscar áudios de arquivo que possam enriquecer a sua história, e mesclar a música com outros elementos sonoros que ajudem a criar a cena (mas sem cair em efeitos sonoros clichês).

E, na hora de fazer entrevistas, procure coletar a história no menor grão de detalhe possível. Esses microgrãos vão te ajudar a recriar as cenas e a deixá-las mais visuais.

Livros citados:

Out on the wire, da Jessica Abel

Sound Reporting, da NPR

Materiais e autores compartilhados no chat:

Revista Radiofonias, da UFOP

Marcelo Kischinhevsky, da UFRJ

Luãn Chagas, da UFMT

Séries de podcast recomendadas:

In the Dark

Bear Brook