Podcast: dicas para gravar em casa com qualidade

Para boa parte dos produtores e apresentadores de podcast, gravar 100% em casa já era uma realidade antes da pandemia. Mas muitos de nós estamos passando por um processo de adaptação. Não podemos mais fazer entrevistas pessoalmente, capturar cenas na cidade, ficar lado a lado com nossos co-hosts e convidados, e nem ir a um estúdio para gravar as narrações e offs.

Fazer tudo de casa e à distância é um desafio, mas não precisa significar uma queda de qualidade técnica no seu podcast e nem um pulo do profissional para o caseiro. Existem algumas coisas que podemos fazer para que a adaptação seja menos dolorosa. 

1. Monte seu kit

Primeiro, é preciso garantir o equipamento necessário para a gravação. Nós já contamos aqui o que usamos para gravar o 37 Graus (basicamente mics Shure SM7B em interfaces Focusrite Scarlett 2i2), mas as possibilidades são muitas. 

Tem quem use um gravador como interface de áudio e tem quem use um mic que pode ser plugado diretamente no computador . Tem quem faça a gravação direto no software de áudio (nosso caso), e tem quem faça isso no gravador para depois passar o arquivo para o computador. 

Isso, claro, sempre monitorando tudo com fones de ouvido supra-auriculares (os headphones, aqueles que cobrem a orelha inteira), que ajudam a notar qualquer ruído ambiente e a perceber melhor a qualidade da voz. E também sempre ficando de olho no gráfico de volume. O ideal é que os picos fiquem entre -12 e -6 dB. 

De modo geral, podemos dizer que as duas principais combinações são:

  • microfone + suporte ou tripé para o mic + interface de áudio + fones supra-auriculares + computador com software de áudio
  • microfone USB + suporte ou tripé para o mic + fones supra-auriculares + computador com software de áudio

Se você apresenta o podcast com outra pessoa, o ideal é que vocês tenham equipamentos parecidos e gravem em ambientes semelhantes (falamos de ambiente aqui embaixo). Assim a transição entre as duas vozes ficará mais suave.

2. Escolha o cômodo que vai virar estúdio

Com o kit montado, é hora de cuidar do ambiente em que as gravações vão ser feitas. O melhor cômodo da casa é aquele que consegue te oferecer o maior silêncio e o menor eco. 

O ideal é que você faça algumas gravações-teste em diferentes lugares para perceber os fatores e chegar na melhor opção, mas algumas coisas são fáceis de notar. 

  • Cômodos pequenos têm menos eco
  • Quanto mais irregulares e absorventes forem as superfícies (prateleiras com livros, arara de roupas, tapetes, poltronas, cortinas), mais macio fica o som
  • Quanto menor o contato com o mundo externo (menos janelas e portas), menor a chance de ruído

Existem também diversas opções de placas de espuma que você pode comprar para cobrir as paredes e, assim, deixar o som mais macio. Mas, de modo geral, pendurar cobertores em volta de você (pegando atrás, lados e em cima) já ajuda bastante. 

Vários apresentadores de podcast já postaram fotos de suas cabaninhas de gravação nas redes sociais. Elas podem servir de inspiração. 

3. Encontre o melhor horário para gravar

Nós aqui costumamos dizer que o início da noite, por volta das 18h-19h, é o horário do cachorro louco. Parece que todos os cachorros do bairro começam a latir e uivar em sinfonia. Mas cada bairro tem as suas particularidades e cantorias caninas. 

Preste atenção ao seu redor e tente perceber quais são os horários mais silenciosos. As madrugadas costumam ser nossas amigas, mas também são um sacrifício para muita gente. Talvez o fim da noite ou o comecinho da manhã (se você não se incomodar com a sua voz matinal) sejam boas opções.

Outra coisa para levar em conta é a rotina da sua casa. Sempre que possível, avise as pessoas que moram com você que a gravação será em determinado horário. Peça que mantenham o maior silêncio possível, ou que fiquem de portas fechadas, em cômodos mais distantes do seu estúdio. 

Para quem vive com bebês ou crianças, o desafio é maior. Uma opção é gravar num horário em que eles já/ainda estejam dormindo.  

4. Entrevista remota 

Para quem faz podcasts documentais e de reportagem, deixar de fazer entrevistas pessoalmente e passar a gravar tudo por internet talvez seja a parte mais dolorida desse processo de adaptação. Sabemos que falar por Skype nunca vai ser igual ir a campo. E que descobriríamos muito mais coisas sobre nosso entrevistado se fôssemos até a casa ou o escritório dele, em vez de apenas olhar para um quadrado na tela do computador. Mas podemos pensar no que fazer para que essa entrevista seja a melhor possível em termos técnicos.

Ao fazer uma entrevista remota, a sua preocupação deixa de ser só sobre o seu áudio e passa a ser também sobre o áudio do entrevistado. São dois microfones e dois ambientes para cuidar.

Existem plataformas que fazem a gravação das duas pontas, como o Zencastr, que é gratuito e salva cada pessoa em uma track separada (o que ajuda muito na edição do programa). Zoom e Skype também dão a opção de gravar. Mas, para garantir a qualidade do áudio, o ideal é que você também grave o seu lado de forma independente, usando o seu kit de equipamentos e o seu software de áudio. Assim, uma ponta já fica resolvida. 

Controlar a outra ponta é muito mais difícil, mas com a colaboração do seu entrevistado tudo se resolve. Primeiro, se possível, peça que ele(a) use um fone de ouvido com microfone (aqueles que vêm com o celular) para conversar com você. Oriente que a pessoa escolha um cômodo razoavelmente silencioso ou que feche janelas e portas para evitar ruídos externos. E lembre-se de dar os avisos que você daria numa entrevista presencial, como evitar batucar na mesa ou digitar enquanto fala.

Na sua ponta você garantiu um back up. Você está gravando a chamada (por Zencastr, Zoom, Skype ou outro) e está se gravando com os seus equipamentos. Do outro lado da conversa, o lado do entrevistado, é importante garantir esse back up também. Peça que a pessoa ligue o gravador do celular e deixe-o sobre a mesa enquanto vocês conversam. E, antes de desligar a chamada, peça que te envie o arquivo de áudio por e-mail. Assim, além de ter maior segurança (seu pior pesadelo seria perceber que um problema técnico fez você perder a gravação inteira), você também ganha a opção de ouvir os dois áudios e escolher o melhor para usar no programa.

Outras leituras:

NPR Training | Professional sound from a DIY studio: It can be done! 

Transom | Grabaciones durante la pandemia del coronavirus

PRX | How to Record Audio For Your Podcast – Podcasting 101 (com legenda em português)

Bello Collective | Remote Audio Recording Guide: Zencastr