Como nasce um episódio do 37 Graus

Atualizado em 21 de julho de 2020.

Da ideia de pauta até a finalização do áudio, a produção do 37 Graus passa por várias etapas. Compartilhamos neste post um pouco dos nossos processos de trabalho para ajudar quem está começando a fazer um podcast narrativo e também para dar um gostinho do que acontece nos bastidores. 

Antes de comentar as principais etapas, aqui vai um mapa que ilustra a nossa produção, incluindo os pontos de tomada de decisão e eventuais necessidades de voltar alguns passos atrás para garantir que a história saia boa.

Fizemos esse mapa como lição de casa durante nosso treinamento com a PRX, como parte do Google Podcasts creator program. Isso acabou ajudando a gente a entender e a otimizar nossas etapas de produção.

Vários pontos são autoexplicativos, mas alguns merecem um pouco mais de detalhe:

Busca por ideias e histórias

O primeiro passo é encontrar a pauta. Mais do que procurar por assuntos interessantes, nós buscamos perguntas intrigantes, causos, personagens, cenários e cenas capazes de conduzir a narrativa. Isso porque, muitas vezes, um tema aparentemente interessante não consegue por si só carregar um episódio. 

Nesse processo, mergulhamos em notícias, livros e artigos científicos, além de conversarmos com cientistas e não-cientistas à nossa volta, incluindo ouvintes do 37 Graus (você pode sugerir uma história aqui). A pauta pode vir de qualquer lugar.

A ideia do episódio Rastros na floresta surgiu quando estávamos trabalhando num evento de ecologia e vimos um pedacinho da palestra do geógrafo Rogério Oliveira. Ele mostrava um mapa do Rio de Janeiro todo pintadinho com os locais onde foram encontrados rastros de antigas carvoarias. Nós nunca tínhamos pensado no Rio de Janeiro daquela maneira, então resolvemos ir atrás dessa história. 

Já a faísca do episódio Vestígios veio da mãe da Bia, que havia participado de um treinamento sobre o diagnóstico de hanseníase e ficou com o assunto na cabeça. Isso nos fez pensar em quantas histórias permeiam essa doença tão antiga e ainda muito presente no Brasil.  

Quando a gente acha que encontrou uma boa pauta, paramos e perguntamos: essa pauta é a cara do 37 Graus? O que essa história tem de interessante? Eu consigo imaginar um bom episódio a partir dessa pauta? Nosso ouvinte vai gostar? 

Uma maneira de saber se uma história é boa ou não é contá-la para alguém (alguém exigente, de preferência). Se a história for capaz de despertar a curiosidade dessa pessoa, bom sinal.

Imaginar a estrutura do episódio

Quando a ideia já foi pesquisada e delineada e nós já fizemos uma conversa preliminar com os principais personagens, é hora de tentar imaginar e desenhar como o episódio pode ser. É como se estivéssemos traçando o mapa da história, o arco da narrativa: onde ela pode começar, como pode se dar a sequência de ações e descobertas, qual pode ser o auge dos acontecimentos.

Claro, a estrutura imaginada quase nunca é a sequência definitiva. Ela muda muito até chegarmos na versão final do episódio. Mas gostamos de fazer esse mapa antes de ir a campo porque ele guia as nossas perguntas e investigações. O trabalho fica mais certeiro e o risco de voltar para casa sem materiais interessantes fica menor.

Depois de voltar do trabalho de campo, nós revisamos o mapa para ver se a estrutura bate com as entrevistas e cenas que conseguimos capturar. Pensamos o que precisa ser trocado de lugar e o que podemos manter como estava.

Esse é foi o mapa que guiou o episódio Criaturas, da série Epidemia. Nessa foto, ele já havia sido revisado após as gravações de entrevistas e cenas, mas ainda passaria por várias modificações na hora da escrita do roteiro.

Escrita do roteiro

Com a pesquisa feita, o mapa na mão, e os áudios de campo transcritos, cortados (selecionamos só a nata) e organizados no software de edição, podemos partir para a escrita do roteiro. O roteiro é a costura de todos os materiais, é o texto que vai dar liga nos elementos e conduzir a história. 

Num primeiro momento, escrevemos essa costura sem nos preocuparmos muito com a escolha de palavras e a fluidez das frases. Costumamos dizer que o primeiro rascunho é “sem julgamento”, você apenas se solta e escreve o que vier na cabeça. 

Depois trabalhamos com carinho em cada parte do roteiro e lemos tudo em voz alta para garantir o ritmo do texto. Repassamos cada trecho de entrevista selecionado para ver se a narração está casando bem com o tom dos entrevistados e se a história está amarradinha, gostosa de ouvir, sem parecer que são simplesmente blocos de narração misturados com blocos de entrevistas.

No geral, na hora de escrever o roteiro, não ficamos pensando muito na duração do episódio. Mas, mesmo sem pensar, nossas histórias acabam sempre ficando com duração entre 25 e 40 minutos. Quando precisamos estimar o tempo de um roteiro, usamos uma ferramenta de script timer

Montagem do episódio

Como já separamos e organizamos no software todos os trechos de entrevistas e cenas que vão entrar no episódio, a etapa de montagem é basicamente gravar a narração (várias vezes até ficar bom) e depois costurá-la com os demais elementos, de acordo com o que estava previsto no roteiro. 

Primeiro fazemos uma montagem mais rústica, sem nos preocuparmos muito com fades, transições e volumes. Então, escutamos o episódio e pensamos quais tipos de músicas vamos precisar e em quais momentos da história elas vão entrar e sair. Anotamos tudo isso no roteiro e enviamos para o nosso músico, junto com o áudio da montagem mais grosseira. Dependendo do caso, mandamos também algumas referências de ritmos e instrumentos que gostaríamos de usar, além das reviravoltas e evoluções que determinada música precisa ter para realçar a narrativa.

Quando as músicas ficam prontas, vamos para a etapa final de edição, já com os ouvidos mais atentos a qualquer detalhe. fades, Acertamos os volumes e fazemos outros tratamentos de voz (equalização, compressão, filtros), inserimos as trilhas onde devem estar, ajeitamos com carinho a costura das cenas com a narração, entre outros toques finais.  

Escutamos o episódio várias vezes (sem fone, com fone ótimo, com fone comum) antes de dá-lo como terminado, e, se possível, compartilhamos com mais alguém antes de lançar — geralmente nossos companheiros fazem o papel de cobaias.